Por meio das nossas pesquisas, da atuação direta na linha de frente e engajamento na formulação de políticas públicas, trabalhamos para influenciar leis e práticas voltadas à regulação da habitação no Reino Unido, garantindo que todas as mulheres – independentemente de sua origem ou status migratório – tenham acesso a moradias seguras e estáveis, essenciais para reconstruírem suas vidas.
Nossas pesquisas e ações políticas são fundamentadas na experiência da linha de frente, apoiando diretamente sobreviventes enquanto navegam o sistema habitacional, muitas vezes complexo e excludente. Ao amplificar suas vozes e defender mudanças sistêmicas, buscamos romper o ciclo de revitimização que tantas mulheres enfrentam.
O OYA foi criado em resposta à negligência sistêmica das necessidades das mulheres da maioria global tanto no acesso à moradia e habitação segura quanto entre as organizações que atuam no combate à violência contra mulheres e meninas (VCMG) no Reino Unido. Organizações genéricas para mulheres costumam receber a maior parte dos financiamentos e contratos, deixando os serviços especializados e culturalmente competentes subfinanciados e vulneráveis. Os membros do OYA trabalham juntos para:
Esta pesquisa concentra-se no primeiro ano de trabalho do WAHA, oferecendo uma análise aprofundada das barreiras enfrentadas por mulheres da maioria global ao buscar acomodações seguras. O relatório examina a discriminação sistêmica, as práticas que dificultam o acesso à moradia e as falhas nas provisões habitacionais locais, além de convocar para a reforma das políticas públicas para a habitação.
Nossa pesquisa revela que mulheres da maioria global que fogem da violência frequentemente enfrentam graves desigualdades habitacionais devido a:
Essas falhas sistêmicas não apenas colocam em risco a segurança das mulheres, mas também perpetuam ciclos de violência e falta de moradia.
Com base em nossa pesquisa e experiência na linha de frente, defendemos:
Alexandra é uma mulher de 58 anos que fugiu da Espanha devido à violência doméstica sofrida pelo seu parceiro durante os 30 anos em que viveram juntos. Ela chegou ao Reino Unido em 2019 e, devido a problemas médicos graves, além da pandemia, perdeu o emprego. Saiu da casa da família com medo de que seu ex-parceiro pudesse encontrá-la usando a filha deles para obter informações sobre seu paradeiro. No Reino Unido, ela ficou na casa da cunhada, onde o agressor podia visitá-la facilmente a qualquer momento.
A irmã e a sobrinha de Alexandra a ameaçaram de morte caso ela decidisse voltar ao Equador.
Alexandra permaneceu por 10 meses em um dos refúgios da LAWA e recebeu apoio para fazer um pedido de acesso à moradia social. Embora tenha recebido uma acomodação temporária pelo council, o imóvel era inadequado para morar devido a uma infestação de ratos. Os vizinhos também relataram a presença de ratos em seus apartamentos, indicando que o problema afetava todo o prédio. Apesar de ter denunciado a situação ao agente imobiliário, demorou para que encontrassem uma solução adequada, o que obrigou Alexandra a dormir no chão da casa de uma amiga. No total, foram quatro meses até que ela recebesse uma oferta de aluguel privado e seguro.
A experiência de Alexandra com a acomodação social em condições precárias de higiene não é um caso isolado. Nos últimos anos, as condições das habitações sociais em Londres têm sido questionadas e descritas como “horríveis”, “inabitáveis” e “perigosas” por muitos residentes que reclamam com os proprietários, sem que ações significativas sejam tomadas.
De acordo com dados da Assembleia de Londres, 15% das propriedades sociais na cidade não atendem aos Padrões de Casas Dignas do Governo, que incluem: cumprimento dos padrões mínimos legais para habitação; estado razoável de conservação; instalações e serviços modernos; e um grau razoável de conforto térmico.
O caso de Alexandra evidencia uma realidade compartilhada, infelizmente, por muitas pessoas vulneráveis em risco de ficar sem moradia e/ou que são atendidas por diferentes formas de habitação social: a precariedade dos padrões de habitabilidade e das instalações desses imóveis, muitas vezes deficientes ou gravemente comprometidos. Já vimos esse tipo de problema resultar em consequências fatais no Reino Unido em vários casos, por isso é fundamental conscientizar e agir rapidamente para apoiar sobreviventes de forma eficaz.
Angela chegou a um dos abrigos da LAWA por meio de um encaminhamento externo. Ela é uma mulher peruana de 42 anos que trabalhava como contadora e fotógrafa no Peru. Mudou-se para o Reino Unido há 13 anos e vivia com o agressor, os dois filhos dele e sua mãe idosa até fugir no ano passado.
O agressor era verbal e sexualmente abusivo com Angela, controlando sua vida, suas decisões, suas finanças e até sua alimentação. Ele ameaçava constantemente “cancelar” seu visto, colocando em risco seu direito de permanecer no Reino Unido. Mantinha vários casos com outras mulheres, enquanto acusava Angela de infidelidade. Em várias ocasiões, quando Angela tentou ligar para a polícia pedindo ajuda, o agressor a ameaçava dizendo que contaria à polícia que ela tinha problemas mentais e que suas filhas e mãe testemunhariam a seu favor.
Angela era responsável por cuidar da família do agressor enquanto ele estava em longas viagens de negócios, garantindo que as crianças fossem alimentadas e estivessem seguras, além de cuidar da mãe idosa dele.
O agressor fazia ameaças constantes à vida de Angela e ela realmente acreditava que ele não queria que ela saísse daquela casa com vida. Um dos aspectos mais assustadores para Angela era o fato de o agressor possuir legalmente armas de fogo, que eram mantidas na casa. Angela não se sentia confortável em voltar para o Peru, pois temia que o agressor usasse seus contatos e influência na região para continuar a prejudicá-la.
No ano passado, após um incidente particularmente violento que envolveu a polícia, Angela entrou em contato com uma organização de combate à violência doméstica e deixou a casa. O agressor foi libertado sob fiança, enfrentando acusações de agressão simples. No entanto, a acusação inicial de controle coercitivo foi retirada.
Após ser encaminhada aos nossos serviços, Angela foi levada para um dos abrigos da LAWA para garantir sua segurança. Nós a apoiamos no enfrentamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático e da ansiedade. Desde que se mudou para o abrigo, Angela começou a dormir melhor, mas ocasionalmente tinha pesadelos em que o agressor tentava matá-la.
Em janeiro deste ano, o agressor descobriu o endereço do abrigo onde Angela estava. Acredita-se que ele tenha contratado um detetive particular para localizá-la, a fim de entregar-lhe documentos de divórcio. Isso não apenas colocou em risco a segurança de Angela, mas também a de outras moradoras do abrigo e da equipe da LAWA. Como resultado dessa violação, a LAWA decidiu transferir Angela para outro de nossos abrigos para garantir sua segurança.
Angela enfrenta um processo de divórcio e seu caso está em andamento no tribunal. Com o apoio da LAWA, ela conseguiu acessar atendimento psicológico para lidar com os impactos emocionais e físicos severos do abuso. O projeto WAHA também a ajudou a garantir o Universal Credit, benefícios de habitação, orientação profissional e apoio no processo para obter a cidadania britânica (aguardando cerimônia de cidadania).
Angela agora está pronta para deixar o abrigo da LAWA e viver de forma independente. Ela vai morar como inquilina de um quarto na casa de amigos e continuará recebendo apoio por meio do nosso programa de reassentamento, que acompanhará sua jornada até a autossuficiência (quando tiver condições para isso).
A forma como este caso foi concluído não é, necessariamente, a regra. Muitas vezes, como resultado do isolamento imposto pelos agressores, as sobreviventes perdem acesso às suas redes de apoio. O que é mais frequente é que elas sejam realocadas em acomodações temporárias ou tenham que buscar moradia no setor privado, já que, infelizmente, garantir habitação social é cada vez mais difícil devido à escassez de moradias seguras e adequadas para pessoas vulneráveis no país, situação ainda mais grave na região de Londres.
O caso de Angela evidencia a multiplicidade de complexidades que podem surgir ao lidar com situações de violência doméstica e controle coercitivo. O fato de a acusação de controle coercitivo ter sido retirada contra o agressor mostra a dificuldade de avançar em casos desse tipo, apesar dos claros danos psicológicos e emocionais que causam às sobreviventes.
Emma é uma mulher colombiana e mãe de uma criança autista. Ela foi encaminhada para a LAWA por um órgão da autoridade local porque sofreu abuso sexual, físico, psicológico, financeiro e muitas outras formas de violência por parte do parceiro. Embora tenham se separado, ela continuou a receber ameaças de morte dele e de sua família, que mais tarde escalaram para agressões físicas e assédio.
Ela foi atacada violentamente em diversas ocasiões, ficando profundamente abalada. Como sua segurança estava comprometida até mesmo dentro de casa, Emma vivia em constante medo pela própria vida e pela de sua filha.
A LAWA esteve envolvida em diferentes etapas do caso de Emma, oferecendo apoio que variou desde aconselhamento psicológico até orientação jurídica. O suporte holístico da LAWA facilitou o envolvimento da polícia para a obtenção de uma ordem de restrição contra o ex-parceiro, além de fornecer assistência na tradução de documentos oficiais e na comunicação com autoridades, já que o inglês não era sua primeira língua.
Apesar da gravidade do caso, da atuação de múltiplas agências para proteger a vida de Emma e de sua filha, e da ordem de restrição, agentes de habitação a questionaram por não falar diretamente com eles sobre o pedido de moradia. Além disso, ela teve que enfrentar um processo longo — que exigiu grande esforço de advocacy por parte da LAWA — para conseguir permanecer em sua casa (que atende às necessidades da filha), pois lhe foi dito que não era considerada inquilina, mas apenas ocupante.
O caso de Emma evidencia a preocupante falta de conhecimento, por parte de alguns profissionais de habitação, sobre como apoiar adequadamente sobreviventes de violência doméstica. De forma alarmante, este caso também ilustra as consequências perversas de formas precárias de posse de moradia para sobreviventes de abuso — que acabam se tornando barreiras adicionais à segurança e aumentando a vulnerabilidade.
Flavia é uma mulher brasileira, heterossexual e mãe de um filho. Ela foi casada por 14 anos, período em que sofreu abuso financeiro, sexual e físico, além de ter o seu status migratório usado como forma de controle, juntamente com outros comportamentos controladores. A rotina de Flavia era restrita pelo agressor e ela não tinha rede de apoio no Reino Unido. Passava os dias sozinha em casa cuidando do filho. Não tinha permissão para trabalhar e ficava sem acesso a telefone. O agressor era viciado em drogas e álcool e, por esse motivo, raramente comprava comida ou fraldas. Como ela lembra, na maioria dos dias ele voltava para casa tarde da noite e, quando chegava, era agressivo: gritava, quebrava objetos e a agredia sexualmente em diversas ocasiões. Por isso, ela passou a dormir no sofá. Durante muito tempo, planejou sair de casa, mas via muitos obstáculos: dependia financeiramente dele, tinha o visto vinculado ao agressor, não se sentia confiante com seu nível de inglês e não sabia por onde começar.
Um dia, conheceu uma mulher que a encaminhou para a LAWA e Flavia decidiu contar sua história. Ela entrou em contato com a organização buscando ajuda para sair da casa onde vivia com o agressor. As profissionais da LAWA a orientaram a registrar um boletim de ocorrência e entraram em contato com advogados de imigração. Flavia foi à delegacia e, devido à gravidade da situação, a polícia ajudou a recolher seus pertences e deixá-la sair da casa naquele mesmo dia. Ela foi transferida para uma acomodação temporária onde permaneceu por seis meses e, depois, para outro apartamento independente, onde vive atualmente.
Flavia está em um apartamento recentemente reformado, em um bairro próximo a serviços públicos, transporte e à escola do filho. Ela diz ser muito grata por ter sido colocada nesse imóvel. O caso de Flavia é um exemplo de boa prática, pois ela sentiu que foi ouvida pelas autoridades locais, que compreenderam o problema e agiram rapidamente para apoiá-la. Ao longo do processo, Flavia afirma que a equipe responsável pela habitação e de serviços para crianças a auxiliou, seja reunindo doações ou identificando suas necessidades para garantir uma moradia digna. Quando se mudou para a primeira acomodação temporária, esse apoio foi fundamental, já que deixou a casa da família às pressas. Ela conta que o filho ficou assustado com a situação, escondendo-se atrás do sofá para não sair de casa. Flavia deixou o lar onde viveu por anos apenas com o essencial.
Flavia diz que o início dessa jornada foi extremamente difícil e que nem ela mesma conseguia acreditar na história que estava contando para a polícia. Achava que ninguém iria acreditar que pudesse permanecer mais de uma década em um relacionamento abusivo. Felizmente, Flavia foi apoiada por uma equipe atenciosa e acolhedora, que levou seu caso a sério e a ajudou a iniciar uma nova fase de vida. Após a mudança para a acomodação, a LAWA continuou apoiando Flavia, mediando a comunicação com a equipe de habitação e acompanhando seu pedido de moradia e de benefício infantil. As assistentes de caso também entraram em contato com um advogado para orientar Flavia quanto aos arranjos envolvendo o filho e seu status migratório.
Gloria é uma mulher colombiana de 35 anos que vive no Reino Unido desde 2020. Ela morava com o parceiro em uma casa sublocada de um amigo em comum. Recentemente, fugiu de casa para escapar desse relacionamento abusivo. Ela foi até a delegacia para registrar um episódio recente de agressão e deixou o imóvel. Enquanto homens geralmente conseguem permanecer na propriedade mesmo quando o contrato de locação é compartilhado, ter que sair de casa é uma situação comum para sobreviventes de violência doméstica. Sem ter para onde ir e sem conhecimento prévio sobre o funcionamento do sistema social, ela buscou ajuda.
No processo de contato com as autoridades públicas, ela relata ter sido alvo de estereótipos e discriminação devido à sua nacionalidade e aparência física. Afirma que, embora um policial tenha sido designado para apoiar suas necessidades, a comunicação tem sido inconsistente e intermitente. Após um primeiro contato frio e revitimizante com as autoridades, Gloria foi colocada em uma acomodação temporária. O espaço onde vive atualmente é pequeno, mas confortável, e fica em um bairro diferente do agressor. Gloria mudou-se para esse local há quase dois meses, mas ainda não assinou o contrato de aluguel. Sobre isso, ela afirma que a comunicação com o responsável local por questões de habitação (housing officer) foi inexistente desde que entrou na propriedade. A falta de comunicação por parte das autoridades é algo que causa ansiedade e insegurança nas mulheres. Sem um canal de comunicação, elas não conseguem pedir apoio para problemas de moradia ou sequer sabem por quanto tempo permanecerão no local. Como disse outra cliente da LAWA: “Estamos no escuro, e a maternidade não combina com instabilidade. Só de pensar em ter que pegar meu bebê e todos os meus pertences e ir para outro lugar sem aviso prévio, eu me assusto.”
A incerteza em relação à moradia reflete em outros aspectos da vida de Gloria. Ela diz que a falta de estabilidade no lar afeta suas decisões profissionais e sua saúde mental. Usuárias dos serviços da LAWA, como Gloria, afirmam que, se as autoridades tivessem uma comunicação transparente e as mantivessem atualizadas sobre seus casos, isso ajudaria a estabelecer um senso de normalidade em suas vidas e reduziria a ansiedade de voltar a ficar sem teto. Infelizmente, mulheres em processo de recuperação precisam correr atrás das autoridades e recorrer a serviços especializados para interceder por elas nesse sistema complexo.
Por fim, para lidar com o trauma resultante das múltiplas agressões que sofreu e da sua situação de vida atual, Gloria recorreu à abordagem holística da LAWA e vem participando de sessões de aconselhamento. Conectar-se com outras mulheres da comunidade também tem sido uma parte importante do seu processo de cura. Conhecer mulheres com experiências semelhantes ajudou na sua estabilidade emocional e na sua autoestima.
Karina é uma mulher negra brasileira de 31 anos e mãe de um bebê recém-nascido. Após três anos vivendo no Reino Unido, ela engravidou, mas a notícia não foi bem recebida pelo parceiro. Karina relata ter sofrido abuso verbal, emocional, psicológico e controle coercitivo. O parceiro constantemente a pressionava para fazer um aborto, o que resultou em uma gravidez difícil. Durante uma discussão, ela teve contrações e acabou no hospital, onde a parteira entrou em contato com as autoridades a respeito da violência doméstica. Naquele dia, Karina não voltou para casa. Karina possui o pre-settled status vinculado ao agressor e está classificada como non-recourse to public funds (NRPF), ou seja, sem acesso a benefícios públicos. Embora estivesse em situação de rua e seu bebê em risco, ela só pôde acessar apoio do governo quando a criança nasceu. A LAWA precisou intervir para conseguir uma vaga em um abrigo para os últimos meses da gravidez e iniciou o processo de solicitação de moradia junto à prefeitura (council). Até ir para a maternidade, Karina não tinha informação de onde iria morar depois. Quando o bebê nasceu, ela foi encaminhada para uma acomodação temporária em um hotel. Ao chegar, não sentiu alívio: o quarto estava sujo, não tinha cozinha nem janelas e havia pessoas com problemas de dependência no prédio.
Com um recém-nascido e ainda se recuperando do parto, ela limpou o espaço depois de um dia intenso de mudança. A inadequação das acomodações temporárias é uma realidade no Reino Unido. Muitas mulheres são colocadas em espaços mistos, sem acesso a instalações básicas como cozinha para preparar refeições ou lavanderia. A falta de acesso à internet também é um problema recorrente, assim como infestações de ratos e mofo. Mais uma vez, a assistente de caso da LAWA atuou em defesa de Karina para encontrar uma alternativa, e ela foi transferida para uma acomodação no estilo Bed and Breakfast. O espaço destinado a Karina ainda apresenta desafios para uma mãe recente; por exemplo, ela precisa lavar as mamadeiras na pia do banheiro porque a cozinha fica em outro andar da casa. Ela explica que, para ir até a cozinha, precisa levar o bebê, seus utensílios e subir as escadas, algo especialmente difícil nas primeiras semanas após o parto.
Como mulher negra brasileira que fugiu da violência doméstica, Karina diz que, infelizmente, não teve uma experiência positiva com a equipe de habitação social. Articular e compreender as camadas interseccionais de opressão, como gênero, raça e status migratório, é fundamental para avaliar corretamente as necessidades das mulheres e também para garantir um atendimento humanizado para mulheres como Karina.
Lúcia é uma uruguaia de 36 anos que chegou ao Reino Unido em 2018 com o companheiro de longa data e uma filha de um casamento anterior. Por quase uma década, ela sofreu diversas formas de abuso, incluindo abuso físico, sexual, psicológico e comportamentos controladores. Desde o início do relacionamento, o parceiro ditava todos os aspectos da vida de Lúcia, desde o modo como ela arrumava o cabelo até o vestido de noiva que usaria. Lúcia vivia sob a supervisão dele, que instalou câmeras na casa e um aplicativo no celular para rastrear suas atividades diárias e conversas. Ele frequentemente tinha crises de ciúmes e era agressivo com Lúcia e sua filha, inclusive em público. Em uma dessas discussões, enquanto dirigia para levá-las para casa, começou a acelerar o carro e ameaçou jogá-lo de um penhasco. Essa postura violenta piorou quando Lúcia teve um filho e se viu isolada da sua rede de apoio. Ela viajou para seu país de origem para fugir desse relacionamento e receber apoio da família; no entanto, o agressor alegou que ela havia sequestrado a criança.
Lúcia precisou retornar ao Reino Unido devido a uma determinação judicial para compartilhar a guarda do filho. Ao chegar ao país, ela entrou em contato com a LAWA e com as autoridades para dar os primeiros passos em busca de um local seguro para morar e proteger o filho. Ela também registrou um boletim de ocorrência. No entanto, o agressor continuou perseguindo e assediando Lúcia online, e ela temia que essa ação pudesse provocar uma reação ainda mais violenta. O caso de Lúcia foi classificado como de alto risco e ela conseguiu uma ordem judicial de não molestamento. A LAWA apoiou Lúcia nas audiências e na elaboração de um plano de moradia. Muitas vezes, mulheres como Lúcia relatam que essa experiência com as autoridades é humilhante e traumática. Durante esse processo, ela relatou a necessidade de repetir sua história várias vezes, sendo desacreditada e julgada por buscar ajuda do governo, além de questionada por não voltar para seu país de origem.
Lúcia observa que foi tratada de forma diferente por ser latina. Ela lembra que precisou implorar por ajuda e esclarecer que não queria estar no Reino Unido nessa situação de vulnerabilidade, mas que não tinha alternativa. Sobreviventes de violência doméstica frequentemente destacam a necessidade de provar às autoridades a especificidade desse momento de suas vidas, recontando suas trajetórias profissionais para mostrar que são trabalhadoras e não pessoas que querem abusar do sistema. A falta de sensibilidade e de treinamento especializado por parte da polícia e dos serviços públicos para lidar com vítimas de violência contra mulheres e meninas significa que mulheres migrantes como Lúcia enfrentam uma abordagem discriminatória antes de receberem apoio.
Com a ajuda da LAWA, Lúcia procurou a administração municipal e solicitou que seu status de visto fosse desvinculado do ex-parceiro. Ela foi colocada em uma moradia temporária, onde vive com o filho. Voltou a trabalhar como assistente de professora. Embora descreva o bairro como um pouco inseguro à noite, o apartamento é independente e está em excelente estado.
Ao relembrar sua história, Lúcia diz que fez diferença ter participado do processo, podendo ligar e enviar e-mails para as autoridades locais, mas sabe que isso não é possível para muitas mulheres devido à falta de intérpretes. Lúcia lamenta que mulheres precisem reviver momentos traumáticos para serem ouvidas. Ela diz que agora consegue finalmente falar sobre o que passou, mas que no passado foi brutal e traumatizante ter que falar sobre isso.